Pós-Parto e o autoconhecimento – Mulheres que Correm com os Lobos

Hoje quase ao anoitecer levei/ a menina que não vê/ um pouco pela floresta a dentro/ onde estava escuro e havia sombras./ Levei-a até uma sombra/ que vinha na nossa direção./ A sombra tocou-lhe o rosto/ com seus dedos de veludo./ E agora também a menina/ veio a gostar das sombras./ E o medo que existia passou. (N. da T.) – Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés.

– Deixando claro que tudo o que está escrito aqui são MINHAS percepções, ok? –

Mulheres-que-correm-com-os-lobosHá 8 meses, nascia minha filha Elis. E nascia também, a mãe Carol. Antes de ela nascer eu ouvia por aí “vai nascer também uma mãe”, achava aquilo lindo e romântico, muito bonito, mas de verdade, não tinha ideia do que aquilo significava.

Sei que ainda está no começo, que sou só uma mãe de 8 meses. Mas posso dizer que já vivi algumas coisas interessantes, dignas de trocar experiências com outras mães, pois a maternidade, pra mim, tem sido isso: uma troca. Troca de papéis. Pelo menos no meu caso, em que “abri” os bebês da família, antes da Elis ainda não haviam outros bebês nem do lado da mãe, nem do pai. Quem era filha, vira mãe. Quem era filho, vira pai. Quem era mãe, vira avó. Quem era irmã, vira tia. Na minha percepção, essa “mudança de status” na vida das pessoas as transforma de um jeito muito forte. Que pode até ser assustador, a princípio. Por isso, essa troca com outras mães, pra mim, é essencial. Porque é muito mais fácil você passar pelas coisas junto de quem está passando pelo mesmo. Você se sente menos “ET”. Menos esquisita. Porque, cá entre nós, de verdade, é tudo muito esquisito, até nos adaptarmos a esta nova vida. Se é que um dia nos adaptaremos. rs

O parto é um portal, por onde passaremos para chegar a uma outra dimensão. Outra dimensão da vida. Dos relacionamentos. Das percepções das coisas e acontecimentos. De nosso relacionamento com o mínimo que seja: arte, amigos, viagens. TUDO muda. Em todos os sentidos. E aí, para lidarmos com essa mudança imensa, de uma hora para outra?? Leva tempo, leva paciência, leva autoconhecimento, leva calma. Leva falar menos. Leva observar mais. Leva muita coisa embora, também. É preciso, sim estar aberta, totalmente aberta e perceptiva a essas mudanças, pois todo o tipo de poda, corte, pode levar a uma grande crise. É preciso se deixar viver e sentir o que estiver sentindo. Não se sentir culpada por sentir ou não certas coisas. É sentir o que está latente, e tentar perceber: porque estou sentindo isso? “Sentar com a dificuldade e chamá-la para tomar uma xícara de chá” – como diz Clarissa Pinkola Estés em seu livro Mulheres que Correm com os Lobos.

É sobre este livro que quero falar, aqui. A partir do momento em que comecei a lê-lo, as coisas começaram a melhorar muito para mim em meu pós-parto. Mas porque? Como um simples livro tem essa capacidade? Acho que é justamente porque, apesar de perdida, eu estava aberta e não me sentindo culpada pelas coisas que eu sentia. Eu sentia, e pronto. E aí, quando comecei a ler já as primeiras páginas, fui me sentindo mais forte. Porque Clarissa mostra de uma forma muito bonita e muito bem escrita, que todas nós, mulheres, temos algo perdido em nossos antepassados. Em nossas entranhas. É a nossa Mulher Selvagem. O nosso lado instintivo, o nosso lado lobo, o nosso lado animal. O lado materno real, que é de estar perto dos filhos, amamentá-los, cuidar deles o máximo de tempo que pudermos. E não nos sentirmos pressionadas pela sociedade. Ao passar dos capítulos, você vai se identificando ainda mais com a natureza em todos os seus aspectos, pois ela fala de florestas, montanhas, lagos, rios. De vários animais, lobos, patos, focas, rãs. E conforme fui lendo, fui percebendo que faço parte de uma grande teia de mães, mães da natureza, macacas, leoas, baleias, enfim. E é gostoso sentir isso. Você se sente de fato parte do mundo, da natureza, percebe que é uma mãe em milhares que, mesmo sendo um momento MUITO difícil, é um momento vivido por todas as mães, e esse fato de nos sentirmos parte de um todo conforta muito. Bem, pelo menos confortou a mim.

Voltando um pouco aos sentimentos de puérpera, o parto em si para mim não é apenas o momento do nascimento de um filho. Na verdade, ao sair o filho de dentro de nós, “tudo o que estava dentro” sai. O que estava ali meio calado, perdido, na dele, sai. Seus medos, receios, impotências, tudo sai. A vida escancara na sua frente tudo o que você sempre quis esconder de você mesma. O filho é a personificação do que LITERALMENTE estava em suas entranhas, e, de repente, sai. E temos que lidar com tudo isso, querendo ou não. E então, percebo que é tudo muito bem planejado pela vida, porque o cuidado com o bebê, pelo menos para mim, é o momento em que estamos mais sozinhas, mais introspectivas, mais ligadas a nós mesmas. Trocar fralda, afagar um choro, dar banho, amamentar, tudo isso são coisas feitas pela mãe nos primeiros meses de vida do bebê, e depois de um tempo fazendo isso, criamos nossa forma de cuidar, e as coisas começam a ficar mais fáceis. Aí vem o momento em que podemos olhar para nós e pensar: o que estou sentindo? como está sendo para mim, tudo isso? O que será que eu tenho que aprender, com todas estas dificuldades com a família e sociedade? Será que eu devo mesmo ficar brava com as pessoas, ou olhar para dentro de mim e ver, de verdade, o que incomoda?

O silêncio do pós-parto é um convite ao autoconhecimento. Se olharmos para nossos bebês, perceberemos, que sorriem para nós, que nos dão atenção, que dizem: você é especial. E acho de verdade, que não tem melhor convite do que este, para nos conhecermos. Pois já nos sentimos queridas. Não precisamos de mais nada a não ser aquela carinha sorridente para nós. E aí, com a leitura certa, podemos de verdade, olhar lá pra dentro e fazer uma viagem para dentro de si. E foi o que fiz, com a ajuda deste livro. Não sei se sozinha faria da mesma forma, pois confesso que senti falta da minha terapeuta. Achei que não conseguiria sem ela. rs

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em extase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar.” pg. 26

Assim Clarissa começa seu livro, nos convidando a este mergulho em nós mesmas. E o mais legal de tudo é que ela deixa bem claro que é normal nos sentirmos frágeis e sem forças, mas que nossa mulher selvagem está sempre esperando por nós, ela anda na nossa sombra, sempre nos acompanha e, vez ou outra, a sentimos perto de nós. Quando não nos deixamos levar pelos pensamentos de outros, quando deixamos nossos instintos falarem mais alto.

Ela tanto entende que é difícil esse processo, que seu livro é feito de 15 contos, e em cada um ela revela um lado da psiquê feminina, eu diria, pelo menos pra mim, que ela contemplou TODOS os lados da psiquê feminina, ela fala com muito cuidado e muita delicadeza de cada sentimento que nós mulheres nem sempre conseguimos definir com palavras. Ela consegue, e é bom quando você dá nome aos sentimentos, por mais complexos e difíceis que eles sejam. Quando você nomeia algo, fica mais fácil de olhar para aquilo de frente, e tentar entende-lo. É mais ou menos assim que me sinto, após sua leitura completa.

Inclusive, separei uma parte em que ela fala exatamente do período pós-parto:

“Num sentido totalmente diverso, o trocador de mensagens, por ser uma força inata e contrária existente na psique e no mundo, opõe-se naturalmente ao novo Self-criança. No entanto, paradoxalmente, como temos de reagir de modo a combater essa força ou a compensá-la, a própria luta nos fortalece imensamente. No nosso próprio trabalho psíquico, recebemos constantemente mensagens trocadas pelo diabo — “Sou boa nisso; não sou tão boa assim. Meu trabalho é profundo; meu trabalho é bobo. Estou melhorando; não estou saindo do lugar. Tenho coragem; sou covarde. Tenho conhecimento; deveria ter vergonha de mim mesma ” Essas mensagens, no mínimo, confundem. Portanto, a mãe do rei sacrifica uma corça no lugar da jovem rainha. Na psique, como na cultura em geral, há uma estranha característica psíquica. Não é só quando as pessoas estão famintas e carentes que o diabo aparece, mas também às vezes quando houve um acontecimento de rara beleza, nesse caso, o nascimento de um lindo bebê. Mais uma vez, o predador é sempre atraído pela luz, e o que é mais luminoso do que uma vida nova?

Existem, porém, outros entes dissimulados dentro da psique que também procuram menosprezar tudo que é novo ou empanar seu brilho. No processo de aprendizado da mulher no outro mundo, é um fato psíquico que, se alguém deu à luz algo de belo, algo perverso também irá surgir, mesmo que momentaneamente, algo que sinta inveja, que careça de compreensão ou que demonstre desdém. A nova criança será repreendida, será chamada de feia e será condenada por um antagonista persistente ou mais de um. O nascimento do novo faz com que complexos, tanto o da mãe negativa quanto o do pai negativo, bem como o de outras criaturas prejudiciais, surjam do depósito de lixo psíquico e tentem, no mínimo, criticar acirradamente a nova ordem e, na pior das hipóteses, fazer desanimar a mulher e seu novo rebento, ideia, vida ou sonho.

Trata-se do mesmo roteiro seguido pelos pais ancestrais, Crono, Urano e também Zeus, que sempre procuraram comer ou banir seus filhos por um medo sinistro de que os filhos os atacassem para assumir seu lugar. Em termos junguianos, essa força destrutiva seria chamada de complexo, um sistema organizado de sentimentos e ideias na psique que se mantém inconsciente ao ego e que, portanto, consegue de certo modo impor sua vontade a nós. No ambiente psicanalítico, o antídoto é a consciência dos nossos talentos e das nossas fraquezas, para que o complexo não consiga agir isoladamente.”

Clarissa é analista Junguiana, eu particularmente me identifico muito com Jung, talvez porque minha analista durante dois anos seja também Junguiana. Clarissa nos ajuda a entender que os sonhos não são simples imagens. Eles falam muito do nosso subconsciente, do que muitas vezes não queremos ver. Há uma parte do livro em que ela fala que mesmo passando por todas as dificuldades e solidão, os sonhos sempre serão nossos, e, se soubermos ouvi-los, serão nossos companheiros e nos darão o norte da nossa vida. Isso faz parte também do nosso lado instintivo. Pois quanto mais nos conectamos com nossos sonhos, mais nos entendemos e ficamos em contato com a nossa “sombra”, aquela, tão esquecida, mas que aos poucos deve virar parte de nossa vida e devemos viver ao lado dela, e respeitá-la e aceitá-la.

Quando ainda grávida, escrevi um texto sobre o filme Cisne Negro, e me veio agora em mente, que ele também fala de luz e sombra, de aceitarmos nosso lado escuro e sabermos lidar com ele. Acho que meu processo de gravidez e pós-parto está me ajudando a enxergar e aceitar que o lado escuro pode  e deve andar ao nosso lado, devemos aceitá-lo, viver bem ao seu lado. Radar ligado, faro afinado. É isso. Nem sempre é fácil, mas a gente se sente melhor, com a Ciranda das Mulheres Sábias que Correm com os Lobos. ;)Abaixo estão os links para baixar os dois livros que mais gosto de Clarissa:Ah, sim, antes que eu me esqueça: homens também podem e DEVEM ler ;)

Mulheres que Correm com os Lobos: http://veterinariosnodiva.com.br/books/MULHERES_QUE_CORREM_COM_OS_LOBOS.pdf

A Ciranda das Mulheres Sábias: http://pt.scribd.com/doc/41198357/A-Ciranda-Das-Mulheres-Sabias-Clarissa-Pinkola-Estes

Boa leitura! Se puder, volte aqui neste post depois de ler, e me diga sua opinião!

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