[Texto] Encontro com Laura Gutman – Por Anna Gallafrio

Não pude ir ao encontro com a Laura Gutman, mas queria muito ter ido. Quando a Elis nasceu, me sentia totalmente perdida, e seu livro “A Maternidade e o Encontro com a Propria Sombra” me tranquilizou e me fez sentir que tenho o direito de levar a maternidade como acho melhor, seguindo meus instintos, e sem ouvir o que os outros dizem. Desde então, comecei uma grande jornada de auto-conhecimento.
Abaixo posto o texto da Anna Marcia Gallafrio, que esteve lá e nos deu este gostinho de termos uma ideia do que foi falado neste encontro. Grata, Anna! Grata também à Michelle Prazeres, que me repassou seu texto de anotações durante o encontro, mesmo sem revisar, e já matou minhas curiosidades logo na segunda-feira! rs

Laura não é uma “deusa”, mas ela faz uma coisa que pouca gente faz: legitima o que já temos cravado lá no fundo, dos nossos instintos, ela “nomeia” o que nós sentimos e assim conseguimos dar vazão às nossas vontades e sentimentos escondidos, por piores ou melhores que eles sejam, mas são nossos. E, pelo menos para mim, nomear as coisas boas e ruins dentro de mim são essenciais para encara-las de frente, e “chama-las para tomar uma xícara de chá” (como diz minha outra autora favorita, Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos), e conversarmos frente a frente.


Por Anna Gallafrio

O encontro com Laura Gutman no último domingo, 3, foi de calar meu coração. Sobriedade e foco, um foco pontualíssimo e igualmente abrangente. Nos convida a pensar a partir de NOSSAS infâncias.

Gutman começa a fala do ponto de vista do patriarcado. Vivemos uma sociedade patriarcal há séculos e não há registros de uma sociedade matriarcal. Essa seria ancorada na Solidariedade, na Sexualidade Livre e na Ecologia. O Patriarcado, por sua vez, se embasa na díade Dominador x Dominado. E para que haja dominadores e dominados, é preciso que haja guerreiros.
Como se formam os guerreiros do patriarcado(nós) ?
A vida intrauteria é um período paradisíaco onde o ser tem calor permanente, alimento permanente, ruído permanente e movimento permanente. Após o nascimento o ser humano é completamente capaz de AMAR. Quem já viu um recem nascido chegar de maneira suave e acolhedora sabe do que Gutman fala. 
Mas as ferramentas do patriarcado estão ali presentes, de olho no guerreiro neonato.
Torturas ao recem nascido e separação da mãe despertam a raiva, a agressividade e a certeza de que o mundo é hostil. Isso tudo se encaixa perfeitamente ao tratamento massificante e coisificado da mãe, completa desconectada do seu corpo e de sua essência, guerreira adulta criada nos preceitos patriarcais de REPRESSÃO sexual e vital. A mulher cresceu aprendendo duramente que corpo, contato e prazer são PECADO- embora Jesus Cristo, ele mesmo, não faça alusão a tais pecados, a Igreja toma para si a doutrinação do que se pode e não se pode ser feito. A mulher, desconectada do que é seu próprio corpo e de suas sensações é um ser absolutamente PERMISSIVO e por isso, permite a entrega de seu corpo e de seu parto, porque não os percebe SEUS. A desconexão humana é justamente o que determina que a mulher ENTREGUE seu parto ao sistema massificado.
Qualquer mamífero que dá à luz em cativeiro manifesta fenômeno semelhante ao observado em mulheres que parem dentro de um sistema massificado. Se parimos em cativeiro, queremos é fugir, pois não há vínculo e nem fusão com a cria, a cria é aquela que fez mal à mãe. 
Não há fusão nessas condições. O bebê CHORA, pois busca o conforto que lhe é conhecido da vida intrauterina. A mãe ignora completamente as razões do choro. 
Laura Gutman parte do pressuposto de que nossas infâncias foram no mínimo péssimas, indo até aquelas terríveis e catastróficas, pois nossas mães não sentiam o que sentíamos. De fato, nós, os bebês temos cada vez mais certeza de que, sim, o mundo é hostil (pra cacete).
A mãe não traduz o sentimento do bebê. Ela mesma não entende que choro é aquele, que dor é aquela.
Na INTERPRETAÇÂO MATERNA esse bebê é EXIGENTE, ou MANIPULADOR, ou MANHOSO, ou uma série de nomes que surgiram num irreverentemente doloroso brainstorming entre a palestrante e o público, alguns já vertendo lágrimas. Se nasce um bebê calmo, logo é dito como MADURO, capaz provavelmente de criar-se sozinho, calado, dando conta de sua própria vida. Se um bebê, manifestando como pode  o desejo por um olhar atento, manifesta uma doença qualquer, por exemplo a asma, a mãe rapidamente nota a asma. Ela não nota a falta de contato, nota a DOENÇA, trata a doença com medicamentos, com os últimos recursos da tecnologia médica. mas nunca lhe ocorre trazer aquela criança para a cama dos pais, o que provavelmente eliminaria a asma por completo. 
A importancia de se nomear os sentimentos:
A consciência se organiza como os outros a NOMEIAM. Se uma experiência não foi nomeada, ela se apaga, é jogada à sombra de quem somos, de quem fomos. Se ninguém nomeia, todo o abandono, a solidão, o abuso sexual e físico, todas as mentiras se apagam da memória. No entanto a criança é capaz de se lembrar com clareza de toda história e sacrifício da mãe. De sua( da mãe) infância sofrida num orfanato, da tripla jornada em dois trabalhos e mais a lida com os filhos, do abandono do marido (pai), etc e etc e etc.
Quem nomeia o que se passa com a criança? A mãe, sempre a partir de suas lentes, do seu preconceito, de sua desconexão absoluta da essência humana.
A criança, por sua vez, necessita de AMOR materno e , portanto, constroi seu PERSONAGEM (lembram? mandona, madura, chorona) da melhor maneira que puder, conforme disse mamãe. 
Tudo que SENTIMOS e somos, em essência e vocação, fica na sombra. O que sempre pedi foi ser interpretada por mamãe! 
A busca do SER ESSENCIAL:
Laura Gutman diz que a busca deve ser pelo encontro com a criança interior. E o abismo é enorme entre o ser essencial e o personagem. O personagem foi estratégia de sobrevivência diante do desamparo! Ele, o personagem, é também importantíssimo para que consigamos ser o que disse mamãe, ser alguem que existe. Pois passa-se o tempo e nos esquecemos de toda solidão e desamparo e continuamos a pedir o que nos faltou, mas já somos capazes de pedir de maneira que mamãe nos veja: manifestações do personagem, pedidos deslocados, doença.
Do ponto de vista da criança que fui, só me lembro do que foi NOMEADO.
Entender o lugar mais sombrio é entender porque fazemos o que fazemos. Não lembramos como nos tornamos esse personagem e através dessa busca podemos entender o que foi experiência e o que foi DISCURSO MATERNO, a fala da mãe nomeando o que se passava. O que se passava com ela, diga-se.
Precisamos entender todo o enredo. Desde o começo. Organizar a BIOGRAFIA HUMANA, nomear as necessidades e os sentimentos da criança que fomos e, de alguma maneira, ainda somos.
Criar x Educar:
Criar é dar amor, carinho, contato. Educar é fazer o correto, é o que temos na ESCOLA. A escolarização regula por sistemas externos à criança. E a criança vai apagando seu fogo interior, se adaptando a esse sistema externo, a ficar sentado e quieto quando seu corpo pede movimento, a não comer quando tem fome,a comer quando não tem fome. Isso, segundo Gutman, é tambem REPRESSÃO SEXUAL, é afastar-se da nossa linha vital.
Impor LIMITE é impor sua PRÓPRIA LIMITAÇÂO. Laura Gutman diz que não precisamos nos preocupar com impor limites aos bebês, às crianças pequenas. Com que idade elas estarão saindo sozinha às ruas, na realidade de nossas metrópolis? 15, 16 anos? Pra que limitá-las aos 6meses, quando começam a comer e brincar à mesa? Brincar e comer são, para os bebês, a mesma coisa. Separar os dois é separar a criança de seus pulsos vitais. Isso também é REPRESSÃO SEXUAL.
A CRIAÇÂO com amor desperta a essência. Na criação sem amor é muito fácil EDUCAR, porque falamos o que se deve fazer e a criança o faz. O bom menino, a boa menina, são aqueles que vão exatamente contra seu impulso vital, contra sua auto regulação.
Chega a adolescência e com ela um RENASCIMENTO. A adolescência é o borbulhar de uma nova potência e de uma libido que foram sendo reprimidas desde os primeiros meses de vida. Laura Gutman aponta a evidência do prazer buscado na amamentação, quando o bebê suga com todo seu corpo, com toda sua potência vital e sexual, até que esteja repleto de PRAZER, satisfeito. Mas na vida dos guerreiros a alimentação é de plástico, artificial, sem prazer, que preenche o estômago de tal forma que só nos resta DORMIR. Pois então, a adolescência é uma oportunidade de despertar para a missão no mundo, para a vocação própria, de ir CONTRA os pais, já que tudo que os pais fizeram até ali é ir CONTRA seus filhos, em essência vital. Não receber o que necessitamos quando bebês é a pior violência que sofremos, uma violência invisível e respaldada socialmente. Aprendemos a viver APESAR da ausência, sem que ninguem nomeie o que sentimos. E vale dizer que a estratégia de sobrevivência é sempre UM EM DETRIMENTO DO OUTRO. Um cilco de violências visíveis e invisíveis. Quem não atende a necessidade do outro está exercendo violência.
Nos tornamos adultos, em busca de um olhar atento, desempenhando duramente nossos papeis estabelecidos, até que encontramos um AMOR. O amor, segundo Gutman, é o cheiro da própria sombra. (pausa para um delírio)
Existem momentos em que o personagem se QUEBRA, são momentos de CRISE VITAL, quando o personagem não dá conta de sustentar a vida. A MATERNIDADE é um desses momentos e quem é mãe sabe muito bem. Quem é mãe e desempenhou a vida toda o papel da mulher autônoma, segura, que dá conta, que faz sozinha e que se basta, sabe disso com o coração. Quem sentiu fusão emocional com seu filho, entende que, quando esse personagem necessita AJUDA, algo não se encaixa. É quando o personagem faz CRAC, se desmancha. É hora de se entender e compreender o nível de desamparo que temos e que o personagem encobriu. Começar a INDAGAÇÂO PESSOAL- método de Gutman de ir em busca de resposta de maneira assertiva e organizar a biografia. O que você é e o que você pensa que é?
Abandonar os benefícios do personagem é doloroso! Nós, adultos, podemos sair de casa sem o personagem, mas queremos? O LIVRE ARBÍTRIO é isso. É decidir usar outros recursos para vincular-se a outros aspectos e lugares da existência. É incômodo mudar, é difícil, é preciso escolher. ir pelos caminhos tradicionais é mais fácil porque estamos muito desconectadas do que realmente somos. Estamos tão aleijados do que somos que não sabemos o que fazer quando em contato com as crianças! Que difícil é estar disponível ao outro! Somos todas crianças pedindo atenção!
A mudança real é a mudança íntima, cotidiana, dentro de casa.
Atender mães e pais é trabalhar preventivamente para um mundo melhor.
Laura Gutman é psicoterapeuta e argentina, mãe e palestrante. Ela deixou claro diversas vezes que abomina a ideia de que usem seus livros- em especial o único traduzido para o português, o A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra- para “pregar” como se deve maternar. Ela deixou claro que seus livros são um convite a olhar a nossa própria infância de um outro ponto de vista.
Claro que a partir daí, muitas optam por construir, preventivamente, um mundo melhor.
beijos e saudações a todas crianças que me deram atenção agora.
Anna Marcia
Anúncios

Um comentário sobre “[Texto] Encontro com Laura Gutman – Por Anna Gallafrio

  1. A Laura Gutman só me da força e certeza de que minha prática caminha para algo bom! Foi a melhor coisa da minha vida descobrir essa mulher!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s