O amor é contagioso, né, Patch Adams? :)

Por Carol Valente

Fico pensando nas voltas que a vida dá, e como ela nos obriga a reavaliar e rever muitas coisas, que um dia quisemos parar de olhar, ou pra se proteger de um pensamento ruim, ou para seguir com a vida. Muitas vezes a gente não dá conta mesmo de olhar para alguns monstros do passado, a gente fica realmente frágil, depois de algumas lambadas da vida. E nem sempre essas lambadas são pequenas, e nem simples de se entender.

A verdade é que algumas vezes a gente precisa de muito, MUITO tempo, pra sarar uma ferida, cicatriza-la. A gente deixa ela ali, quietinha, sem tocar nela, e continua vivendo a vida, olhando pra frente, porque é realmente apenas o que conseguimos fazer em um primeiro momento. Às vezes, a gente precisa de não meses, mas ANOS, para curar de algumas coisas. Eu mesma, estou me dando conta de que só agora consigo olhar para coisas que aconteceram ha 10 anos atrás, que mexeram demais comigo, mas nunca tive coragem de olhar. Mas agora o “olhar para o monstro” é um chamado à libertação, é como se eu soubesse, dentro do meu coração, que depois de encara-lo, ganharei uma libertação de sentimentos.

Esse “chamado” a olhar para mim, como todas as pessoas que acompanham meu blog sabem, veio com a chegada da minha filha, ha 1 ano e 8 meses. Não, na verdade, mesmo mesmo, veio ha 4 anos, quando comecei a terapia, e me lembro exatamente o que disse para a minha terapeuta: eu quero a verdade. Por mais que doa, a verdade. Estou cansada de viver uma mentira. Lógico que ela não me deu nada, quem correu atrás fui eu, ela me auxiliou nessa caminhada, porque a verdade liberta, mas antes de libertar, dói muito, se ela foi por muito tempo escondida de baixo do tapete. Comigo foi assim. Os meus sonhos eram intensos, eu acordava sempre suada e ansiosa. E na terapia trabalhava meus sonhos, e aos poucos fui vendo, e a sombra foi ficando consciente. Algumas pessoas não gostam da sombra, mas eu agradeço muito a ela, porque encará-la me tornou muito mais forte do que eu pensei que seria capaz, e ao encontra-la, soube também lidar com a luz de um outro jeito. De um jeito mais maduro.

Quando a gente tá muito perdida, como eu estava antes de tudo isso acontecer, a gente só quer procurar um buraco pra se enfiar, ficar quietinha, viver a nossa vidinha, sem ninguém pra nos encher o saco. O dia a dia já é pesado demais. Carregar o nosso próprio peso, o peso de não nos olharmos, já é o suficiente, não precisamos de mais. E então, nossas relações com as pessoas surgem de acordo com a nossa energia. Já pararam para perceber? Pessoas que conhecemos em uma época da nossa vida, se boa ou ruim, têm a energia dessa época. Até agora não descobri se elas têm mesmo essa energia, ou se é a fase boa ou ruim que vivemos, que faz aquela pessoa. Não sei se me entendem. Me preocupo em dar para uma pessoa um “rótulo” bom ou ruim, dependendo da fase da minha vida em que conheci aquela pessoa. Eu não queria rotular as pessoas, porque pessoas mudam, mas ainda é meu isso, admito. Ainda não consigo “descolar” uma pessoa de um momento da minha vida, e leva-la para outro, sem levar o que ficou do passado. Me entendem? ou estou sendo “filosófica” demais?

Eu fiquei tanto tempo presa em uma situação difícil que passei ha 10 anos atrás, que tudo o que aconteceu logo depois, meio que foi considerado por mim uma consequência daquilo, e como foi um acontecimento ruim, tudo o que veio com aquele momento, ficou na mesma “caixa das coisas ruins”. Algumas coisas realmente foram ruins, mas outras, não. E só consigo ver isso, hoje. Depois de muito tempo. Em um momento em que me abro pra mim mesma, me dou o direito de errar, de não ser perfeita, de aceitar minhas coisas ruins, mas também as boas.

Quando essa fragilidade toda ainda está latente, procuramos nas pessoas algo que nos complete, que nos preencha, que preencha aquele vazio que ficou, e isso não é ruim, é só uma forma de se proteger. Mas chega uma hora em que precisamos encarar nosso passado, para olhar o futuro de cabeça erguida. E acredito que a chegada de um filho faz isso com a gente. Nos dá esse fôlego, já que temos essa vida nova – literalmente vida nova! – podemos olhar pra trás com menos medo. Bem, pelo menos é isso o que sinto. E com a chegada da Elis, eu passei a encarar todos aqueles fantasmas que eu tinha medo – muito medo – de encontrar. Tem sido uma experiência muito difícil mas ao mesmo tempo, a cada dia, sinto que um peso que foi carregado por muito tempo, vai embora. E isso trás uma sensação de libertação, que é difícil até de descrever.

Essas pessoas que nos apegamos nos momentos difíceis, foram muito importantes. Foi quem cuidou de nós, quem esteve ao nosso lado quando mais precisamos. Mas é chegada, também, a hora de libertarmos essas pessoas. Quando nos tornamos donos de nós mesmos, podemos libertar essas pessoas, para serem donas delas mesmas, porque elas merecem sentir essa libertação também.

Viver é uma troca. A gente precisa dos outros, recebe a ajuda, e quando a ajuda é feita sem querer nada em troca, aquilo preenche as duas pessoas e fortalece a ambos. E então, quem foi ajudado se preenche de amor, e sem querer nada em troca, só por ver o outro bem, quer ajudar também. O amor é contagioso, já dizia Patch Adams.

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