Carol Valente em: auto-conhecimento e o corpo que come e sente

Dei este depoimento à querida Fabiolla Duarte, ha 12 dias atrás, e esqueci de postar aqui. Mas acho importante dividir essas experiências, né?

O link original está aqui http://vilamamifera.com/alimentoecomportamento/carol-valente-em-auto-conhecimento-e-o-corpo-que-come-e-sente/

Difícil falar de algo que está tão dentro de mim, há tanto tempo. As vezes acho que sei nomear isso que sinto, as vezes não. As vezes é tão familiar e fácil de lidar, mas as vezes é muito misterioso, chega a ser até assustador.

Poucas pessoas diriam que o assunto do qual me refiro acima é alimentação. Parece algo tão simples para algumas pessoas, e acredito que realmente é, se pensarmos racionalmente.

Minha história com alimentação e corpo vem desde pequena. Todos tem suas histórias, sejam elas boas ou ruins, quando se trata de alimentação, e eu estou em busca de um final feliz, neste assunto. Ainda não é, sou bem sincera aqui, e acho importante a sinceridade. Escrever me dá forças, como se colocasse pra fora alguns monstros que durante muito tempo eu não quis ver, e muito menos mostrar. Escrever e falar sobre isso é um início da minha cura. Não tenho mais a vergonha que antes tinha para falar sobre isso, portanto acredito que este já é meu primeiro passo nessa “escalada” (oi, Coaching da Anna Gallafrio! rs).

Tenho questões com meu corpo e alimentação desde os 4 anos de idade. Aos 9, fui pela primeira vez ao Vigilantes do Peso, uma reunião que na época só era frequentada por adultos. Sempre senti, desde pequena, que eu estava errada ao ser gordinha, que estava fora dos padrões (e estava mesmo, mas padrões no ponto de vista de quem? meu ou da sociedade?), e como várias crianças passam por isso, eu fui mais uma das que sofreram bastante bullying. Na escola, no prédio onde eu morava, todas as crianças eram bem claras ao dizer que gordinho nunca ia entrar na turma delas. Pra mim aquilo foi realmente difícil. E só com 4 anos de terapia, começo, hoje, a enxergar além do que essas crianças falavam.

Adolescência. Eu, com 1,75 cm aos 13 anos de idade, gordinha, queria mais é me esconder. Achava um absurdo ser tão alta. Como assim, os meninos da minha sala eram bem mais baixos do que eu? Comecei a paquerar os meninos de turmas mais velhas, logico, porque eram pelo menos da minha altura. rs Sempre, sempre me senti um peixe fora d´água. Vestia aquelas camisetas grandes, pra me esconder mesmo, a ideia era essa. Eu tinha muita, muita vergonha do meu corpo. Acredito que toda adolescente nessa idade, tem questões com seu corpo, afinal é um mar de emoções e mudanças físicas ao mesmo tempo.

E assim segui, entre dietas milagrosas de ficar sem comer e só tomar líquido, dieta do pão, dieta da proteína, dieta da lua, enfim… eu emagrecia, mas voltava a engordar. E quando voltava a engordar, parecia que o mundo tinha acabado, que eu estava realmente fazendo algo errado, que eu estava totalmente fora de um padrão que eu tinha, porque tinha, que seguir. Eu não me conformava de me sentir tão fora dos grupos, das pessoas. Achava que o fator “ser gordinha” definiria se eu seria feliz, ou não. E confesso, até hoje, muitas vezes, ainda é assim.

Aos 20 fui morar sozinha, e acredito que tenha sido este o momento mais complicado para a minha alimentação. Eu não sabia cozinhar, e não estava de verdade preocupada. Almoçava miojo com tomate todos os dias. Emagreci! Olha só. Mas vivia gripada. Doente. Imunidade, zero. Porque será?? Miojo é tão saudável, né?

E, aos 24, no ano do meu TCC, engordei muito. Engordei cerca de 15 kg naquele ano. Ansiosa, comia muito, colocava na comida a ansiedade de tentar resolver algo que eu não sabia o que era. Era como se a comida cuidasse de mim… eu sentia pena de mim mesma, e comia, para “fazer um carinho” em mim. E hoje percebo que é bem esse mecanismo mesmo, o de me dar um afago. Quando me sinto vítima de uma situação, eu como, como se esse fosse um jeito de cuidar de mim, de “me pegar no colo”. Cada um tem a sua válvula de escape, alguns bebem, outros fumam, outros fazem exercícios, outros comem. E esse sempre foi o meu jeito de dizer pra mim mesma: tadinha! Vem aqui comer uma coisinha gostosa. rs

O que escrevi no parágrafo acima, eu percebi depois de começar a terapia. Mas não comecei a terapia por livre e espontânea vontade. Comecei, porque, depois de um dia de muito stress, aos 27 anos, tive um pico de pressão alta e decidi operar o estômago. Eu pesava 132 kg, 40 kg acima do que, segundo a “sociedade”, eu deveria ter. Não foi uma decisão fácil de tomar, eu sempre odiei cirurgias, hospitais, coisas furando minha veia, sempre odiei a ideia de me cortar. Mas, depois deste dia, eu já estava cansada. Cansada de não caber no banco do ônibus, cansada de as pessoas me julgarem, cansada de não caber em nenhuma roupa. Cansada demais. Me entreguei.

E eu queria muito, muito ser mãe. Meu médico me disse, antes de operar, que eu precisaria perder cerca de 30 kg para engravidar, caso contrário, eu teria grandes problemas na gravidez. Este foi o ponto decisivo. Eu operaria. Fiz toda a bateria de exames, e o dia chegou.

Não me arrependo de ter operado. Melhorou minha qualidade de vida, muito mesmo. Mas, me sinto na obrigação de dizer, que quem opera achando que vai resolver todos os problemas, que vai ser feliz pra sempre, que nunca mais terá de olhar para as suas questões com alimentação, melhor nem operar. E precisa de muita ajuda psicológica. Porque a gente muda muito, vira outra pessoa, fisicamente, em 6 meses. E isso mexe na cabeça, muito mais do que se possa imaginar. Precisa de ajuda psicológica, por um bom tempo, pelo menos dois anos, depois de operar. Essa é a minha visão. E mesmo assim, a coragem de continuar se olhando e tentando se entender, nunca pode ir embora. Porque nós somos uma caixinha de surpresas…

Eu diria que, o evento que mudou os rumos da minha caminhada, foi o parto da minha filha, em 2011. Eu tinha 29 anos. Ali, naquele momento, quando eu senti ela vindo, senti que ela chegaria logo, naquele trabalho de parto de 3 horas apenas, eu conheci ali uma Carol que eu não fazia ideia que existia. Eu conhecia mais, uma Carol cabisbaixa, triste, se sentindo fora dos padrões que, ao meu ver, estavam certos. Eu deveria mesmo ser magra como a sociedade exige, caso contrario não seria feliz. Mas ali, não importou se eu era magra, ou gorda. Importou a força que eu senti dentro de mim, de parir a minha filha. Ali, o recado da vida foi: Carol, você é muito melhor do que você pensa.

E esse recado vem ecoando na minha cabeça, desde que ela nasceu. Meu corpo, que até então eu tinha tanta vergonha, sentia que era tão errado, trabalhou da forma mais linda possível, minha cabeça e meu corpo, em uma sincronicidade que eu nunca imaginei que seria possível. Eu sou foda! Foi essa a sensação depois de parir. rs.

Mas essas coisas não fazem parte de nós do dia para a noite. Parir ali, em casa, daquele jeito tão especial e único, foi o inicio de uma “caminhada de volta”, eu chamaria. A volta a mim, a me reencontrar, repensar quem eu sou e o que de verdade faz sentido pra mim. Devo ser magra? gorda? quais são meus parâmetros? uma sociedade doente, que acha bonito que uma mulher seja muito magra, ou os meus padrões internos? e quais são meus padrões internos? eis a questão. Que está começando a ser respondida, mas ainda tem um grande caminho pela frente.

Hoje, estou 10kg mais gorda do que estava antes de engravidar. Voltei a me consultar com a terapeuta da época da cirurgia, pra voltar a olhar bem a fundo, os reais motivos da minha fome. O que eu sei, é que essa fome não é de comida. Porque ela vem em momentos em que me sinto triste, carente, precisando de algo. Aos poucos, vou aprendendo a “me pegar no colo”, sem precisar da comida. Encontrando outras formas de ficar bem, e isso está acontecendo, aos poucos, mas está. Me sinto bem acima, na minha “escalada”, se compararmos a 5 anos atrás. E é por isso que eu sei, que vou encontrar meu jeito. “Liberdade caça jeito”, diz Manoel de Barros, e eu estou me libertando aos poucos de muita amarras, e sei que me libertarei desta também. Procurando seguir uma vida saudável, mas sem neuras. Porque eu mereço me cuidar. Só por isso.

Agradeço à Fabiolla pela oportunidade de falar sobre esse assunto, que tanto mexe comigo, e escrevendo, sei que estou em processo de cura.

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