Desmame aos 3 anos: de como aprendi que não existem fórmulas mágicas. Só autoconhecimento.

RELATO DE DESMAME (aos 3 anos).

Carol Elis Sombra

Não consigo quantificar, qualificar, especificar tudo o que tem significado pra mim, ser mãe. Tem sido uma transformação tão grande, um re-conhecer-se tamanho, que sempre que acho que vou conseguir dar um nome para o sentimento, vem algo que me faz rever conceitos que antes eu achava certos dentro de mim. A cada dia me transformo em outra, e outra, e outra, e não é a toa que as pessoas que me conheciam antes não estão me reconhecendo: porque, de fato, eu estou mudando muito, de um jeito que nem eu mesma consigo nomear. Por isso, esse texto não é algo para dizer: faça assim. É apenas uma experiência de desmame de uma mãe em constante mudança interna, e uma menina de 3 anos muito perceptiva e conectada com a mãe. Eu disse “desmame de uma mãe”. Olha só… pois é, quem desmamou fui eu, quem passou pelo processo de forma mais dolorida fui eu, porque minha filha tirou tudo muito de letra.

Eu sempre pensei que o desmame seria como muitas mães disseram que foi: a criança chega e fala “não quero mais”, e assim está decidido. Eu tinha certeza de que seria assim conosco também. Tinha certeza de que eu teria toda a paciência do mundo para levar a amamentação até os 4 anos ou mais, se necessário. Eu, que sempre fui a “tia Carol”, sempre me dei bem com todas as crianças, sempre estive rodeada delas nas festas, eu tinha certeza de que nunca me incomodaria em amamentar até quando ela estivesse bem grande.

Mas, para minha surpresa, quando ela completou dois anos, eu já estava cansada. Pra ser sincera, estava mesmo de saco cheio de amamentar. Desde que Lili completou 1 ano de idade, venho passando pelo processo mais doloroso da minha vida, com acontecimentos muito difíceis de lidar. Acho que tem a ver também com essa mudança que nasceu em mim com a maternidade, mas não só, porque de fato aconteceram fatores externos que mexeram muito comigo também. Mas não vem ao caso agora, falar sobre eles.

Fato é que aconteceu algo inédito pra mim: eu me vi precisando colocar limites. Limites no meu relacionamento com os outros, e isso incluía a Lili também. Aos dois anos e meio da Lili, eu já estava de fato querendo desmamar, mas sem forças pra começar o processo. Sem saber como fazer, e me sentindo um pouco culpada por querer desmama-la antes de ela pedir para que isso acontecesse. Um mix muito doido de sentimentos.

Ha 23 dias Lili não mama. Ela está com quase 3 anos e dois meses. Nosso processo de desmame está completo. Mas para eu chegar aqui, precisei entender uma série de coisas como mãe. Eu antes sentia essa culpa, uma culpa por me incomodar ao amamentar. Como assim, não sou a mãe perfeita? como assim, não estou sempre sorrindo perto da Lili? Tinha um certo pensamento de que Lili não poderia me ver mal, para ela não ficar mal também. Era um pensamento que vinha comigo desde sempre. Mas que foi mudando ao longo dos últimos meses. Comecei a pensar diferente, entender que crianças não devem ser colocadas em uma redoma, uma bolha, pra achar que tudo é sempre lindo. É importante elas entenderem que sim, existe dificuldade, sim, existe cansaço, sim, existe exaustão. Mamãe chora, mamãe se cansa, mamãe as vezes precisa ficar sozinha.

Foi quando passei a não mais me culpar por me sentir mal, que consegui começar esse processo de desmame. Entendi que a Lili precisava saber que sim, eu estava cansada e amamentar me fazia sentir de fato “sugada”, literalmente sugada – junto com a amamentação, ia também minha energia. Eu precisava, muito, que aquilo acabasse, pra tentar restaurar nossa relação, que já não estava muito boa por conta da crise que passei. Eu me irritava fácil com ela, não conseguia brincar com ela, queria ficar sozinha o tempo todo. Minha relação com ela já vinha assim há mais de um ano, eu totalmente sem paciência pra ela, o que é normal também. Mas eu de fato sentia que a amamentação estava atrapalhando. Que dava para ficarmos mais próximas, eu sentia que a amamentação estava atrapalhando o desenvolvimento da nossa relação. Como se uma fase precisasse mesmo acabar, pra que outra começasse. E dessa vez EU diria quando isso ia acontecer. E não ela, como eu idealizei.

Pois decidi, nas minhas férias do trabalho e férias dela da escola, que iria desmamar. Ela já não mamava muito, era apenas uma vez por dia, para dormir, mas mesmo assim me incomodava. Eu sentia aflição quando ela sugava meu seio. Estava mesmo exausta, e eu precisava legitimar isso dentro de mim, era uma exaustão verdadeira e eu não tinha porque me sentir mal em querer desmamar. Então comecei a avisa-la: “filha, vamos dar tcháu pro mamá?”. Todo dia, quando ela pedia pra mamar, eu dizia isso e ela logo em seguida já dizia “xáu, mamá”, e dava beijinho nos dois seios, guardava-os na blusa e ficava tudo bem. Todos os dias eu dizia isso, fui bem firme. Em alguns momentos senti que ela queria mesmo mamar, me olhava com aquela expressão “pode?”, e eu sempre firme: não. Vamos dar tcháu pro mamá. E logo em seguida ela dizia “tcháu, mamá”, e pronto. Nunca chorou por isso, não fez birra, não reclamou. Ela entendeu, e percebeu meu cansaço, e tem acompanhado os motivos do meu cansaço. Sinto que justamente por eu não ter escondido meus “podres” dela, ela entendeu que estava mesmo na hora.

Ha 23 dias não vivemos esse processo de amamentação, mas outros muito bonitos estão nascendo, entrando no lugar da amamentação. Passei a me sentir menos sugada, e direcionei essa energia para estar com ela de verdade. Brincar com ela, estar junto, mesmo. Eu não conseguia fazer isso há muito tempo, muito tempo mesmo. Desde que ela tinha 1 ano, que foi quando a crise na minha vida estourou. E eu nunca escondi dela, meus choros, minhas lágrimas e dores. E ela sempre me acolheu quando choro, sempre me abraçou, hoje beija muito, abraça, é uma criança muito carinhosa, muito perceptiva também. Ela percebeu que estava difícil pra mim, e colaborou. Mas, e se eu tivesse escondido dela, como seria? Talvez o processo não fosse tão natural. É isso o que eu sinto. Após o desmame nossa relação ganhou muito mais energia, eu me irrito bem menos com ela, quero de fato estar com ela. No final, a amamentação estava nos afastando. Louco, né? Vai entender essa tal de maternidade. Não tem MESMO uma fórmula mágica. Só existe o autoconhecimento.

Foto: Carol Valente

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