Carta para mim mesma, no dia da Marcha das Vadias em Santos, SP.

carolcirurgia

Eu, dias antes da cirurgia. Sim, eu era feliz. E sou. O mundo é ridículo, e nós, bestas, de querer seguir padrões.

Todas CONTRA O MACHISMO. E nos libertando de padrões machistas.

** APROVEITO PARA DIVULGAR O EVENTO QUE ACONTECERÁ HOJE! https://www.facebook.com/events/572501979543653/?fref=ts****

Queria conseguir me expressar, pra falar sobre o que eu sinto, ao ter feito uma cirurgia bariátrica ha 5 anos e meio, depois de pesar 132 kg e ter sido gorda a minha vida toda, e hoje, continuo me sentindo mal, pois apesar dos 40kg que emagreci com a cirurgia, já engordei metade disso.

Mas não estou me sentindo mal por ser gorda em si, e sim por tudo aquilo que passei no pós operatório, e hoje recuperei essa quantidade de peso. Fico pensando no pós operatório, o quão difícil foi tudo aquilo. Minha cirurgia foi aberta, não via vídeo. Tenho uma cicatriz de 12 cm no meu estômago, o pós operatório e adaptação alimentar duraram cerca de um ano e meio, e com dois anos de operada, engravidei.

Hoje, preciso ter cuidados específicos para quem operou. Não posso esquecer, nunca mais, de tomar o polivitamínico, pois tenho deficiência na absorção de algumas vitaminas. Hoje além desse polivitamínico, preciso também tomar um repositor de vitamina B12, que não consigo repor através da comida, apenas com a vitamina em capsula.

Não posso dizer que me arrependo por ter feito, pois o que está feito, está feito, mas se fosse hoje repensaria muito se faria essa cirurgia. Quero cada vez mais, mandar esse sistema “praquele lugar”, mandar todo mundo que me olha com cara de “nossa como vc engordou!”, todos, sem exceção, praquele lugar. Eu passei a infância e adolescência sendo julgada pelas pessoas, por ser gorda, e me sentia muito culpada por isso. Hoje vejo que quem estava errada eram essas pessoas, por me julgarem. Quem me ama não me julga. Aprendi isso com os tapas na cara da vida.

Quando decidi fazer essa cirurgia, foi uma época muito difícil da minha vida, quando eu estava psicologicamente muito mal. Trabalhava em um lugar que odiava, me sentia observada todo o tempo, ansiosa, e minha pressão subiu um certo dia de muita tensão. Aos 27 anos, chegou a 16:10. E com isso, pesando 132kg, IMC 43, decidi operar (decisão tomada pela família toda…).

Com a cirurgia, fui obrigada a fazer terapia, pois é obrigatório para quem vai operar, fazer durante 6 meses. Mas eu gostei tanto, que continuei, e não parei. Hoje continuo com a mesma terapeuta, que me ajuda a encontrar meus pontos positivos, minha auto-estima, minha historia, quem eu sou e a minha importância para o mundo. Hoje posso dizer que, o melhor da cirurgia, foi ter começado a terapia. E, aos poucos, vou desconstruindo padrões que a sociedade machista colocou em mim: de que eu devo ser sempre magra, de que ser gorda é ruim, é feio.

A cada olhar e comentário de que engordei, mais me autoafirmo e percebo que essas pessoas que comentam isso não estão de fato preocupadas comigo, e sim em manter o padrão machista de corpo, que a cabeça delas segue.

Quero que minha saúde fique boa, fiz exames recentemente e estou muito bem, e quero fazer atividade física porque gosto muito, e vou fazer pois me sinto bem com isso, mas, a partir de hoje, não vou mais me “chibatar” por ter engordado, eu tenho tendencia mesmo e meu corpo tende a ser assim. Sou bonita de qualquer forma e quem quer me mudar, que se mude. Eu cansei de mudar pelos outros. De corpo e de alma. Pra mim, chega.

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