De como percebi que não sou “Mãe Maravilha”. E aprendi a pedir ajuda.

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Desde que engravidei, venho em um movimento de ser cada vez mais autônoma, de pedir cada vez menos ajuda. Por querer fazer as coisas do meu jeito, por ver que muita gente não tem nada a ver com o que eu busco para mim como mãe, por perceber que poucas pessoas entendem a forma como eu quero criar a minha filha.

Entendo que escolhi um jeito diferente de cria-la, focando menos em presentes, menos em separar coisas de menino e menina, menos em alimentação cheia de açucares, menos, sempre menos. Focando mais em viver a infância, em andar descalça, em brincar com coisas de menino e com coisas de menina, em se vestir de azul, com uma alimentação mais natural possível, menos televisão, também. Esses são meus ideais, desde que engravidei, ha 4 anos atrás, e continuam sendo. Acredito que é importante te-los como um objetivo, um direcionamento, na criação da minha filha. Cama compartilhada, amamentação até os 3 anos, desfralde ainda não aconteceu e vou respeitar, enfim. Respeitando o tempo dela. O máximo possível.

Mas toda essa autonomia como mãe, tem um preço. Querer fazer TUDO sozinha e do meu jeito, por um lado é ótimo, pois, desta forma, tenho total controle sobre o que acontece com a minha filha. Só que esqueceram de contar um outro lado da moeda, nessa escolha de viver tudo sozinha. Esse lado ninguém me contou – ou eu não quis ouvir, de tão cega e apaixonada pela maternidade autônoma que estava.

O lado que não me contaram é que, muitas vezes, tudo o que nós queremos é um tempo só pra nós. Cuidar de nós, fazer coisas de gente grande, e não coisas de criança o tempo todo. Com o tempo, você vai percebendo que tem uma vida além da maternidade, e quer vive-la. Quer ir no bar, beber uma cerveja. Quer ir em um show do seu artista preferido. Quer ouvir música alto no fone de ouvido e mandando tudo pras cucuias. Quer olhar o mar, sozinha, contemplar e pedir ajuda a Iemanjá. Coisas que se faz sozinha. Coisas que implicam em estar longe dos filhos.

Foi quando me toquei de que estava me privando de viver coisas boas para mim, e quando me toquei de que meu excesso de zelo pela minha filha estavam fazendo mal a mim e a ela. Ela, irritada com frequência, querendo sair e ver o mundo, e eu, morta de cansaço, por fazer tudo sozinha. Ok, eu tinha de fato aquele controle, de fato ninguém metia o nariz na minha maternagem, mas ao mesmo tempo, eu e ela estávamos vivendo em um mundo paralelo e precisando nos relacionar com o mundo. Um dia, contactei minha antiga psicóloga pelo Skype, e percebemos o que eu menos queria aceitar: eu estava com um quadro depressivo. Meu companheiro, também em estado depressivo, por questões pessoais. Estávamos em vias de piorar ainda mais.

Foi então que precisei encarar o que eu menos queria: eu precisava pedir ajuda. Mas para quem? Se havíamos nos mudado, na gravidez, para bem longe da família, justamente porque não queríamos ninguém enchendo o saco?

Precisei me desconstruir e encarar mágoas que tinha com algumas pessoas, e pedir ajuda para elas. Encarei meus monstros, vi que eu precisava passar por cima daquela mágoa, para o meu bem e para o bem de todos nós. Chamei meus fantasmas pra conversar, e uni forças. Decidimos nos mudar, de volta, para nossa cidade original. “Vamos pedir ajuda. Não está dando mais”.

Nos mudamos, e logo arrumamos a rotina. Pedimos ajuda. Ela vai a escola, e quando estou precisando de um tempo para mim, eu simplesmente deixo ela com a tia e a avó, e saio. Para meus devaneios necessários, meus passeios comigo mesma, para ouvir minha música alta, para andar na beira do mar. Para conversar com Iemanjá. E assim tem sido ha cerca de 10 meses, desde que nos mudamos, e posso dizer que tudo está longe de ser como eu pensava. Eu pensei que iam infernizar nossa vida, mas muito pelo contrário, super nos respeitam, por estarem mais perto dela. Perguntam as coisas para nós, quando queremos ou não que faça algo. Claro que tem suas diferenças, claro que tem seus problemas, mas eu não tenho nenhuma dúvida ao dizer que valeu muito a pena ter voltado.

Ainda estou no processo, mas o que tenho aprendido sobre maternidade é que pouca coisa esta de fato no nosso controle. Mas que é importante manter um foco. É importante pensar no que queremos como mães, mas não colocar isso como algo tão radical, de forma que nós precisemos abrir mão do nosso tempo individual. Outra coisa que tenho aprendido é que ser mãe não combina com idealizar. Quanto mais a gente idealiza, mais a gente se dá mal. Também não adianta ler milhões de livros, e idolatrar um autor, porque quem escreveu o livro é também uma pessoa, e pessoas erram. Idealizar alguém ou apedrejar alguém, são coisas que já não cabem mais. O legal é ler e pegar o que foi bom pra nós. O que não foi, tcháu e fui.

Ser mãe tem me ensinado que pwork_at_home_momsoucas coisas nessa vida valem tanto a pena, do que perceber o crescimento dos nossos filhos, sua curiosidade com o mundo. Mas que, para termos toda essa atenção, precisamos do nosso tempo, também. Precisamos entender que vivemos em uma sociedade que quer que sejamos Mulher Maravilha. A mulher que trabalha fora, e que dá conta de filho, de casa, de família. Não consigo concordar com este modelo.

Olha, não sei quanto a vocês, mas eu não sou Mulher Maravilha, não. Eu peço ajuda, pro marido, pra tia, pra avó. Peço ajuda, mesmo. Eu não dou conta de tudo. Não dou. E me sinto bem ao perceber que sou HUMANA, que tenho defeitos, que erro, que faço merda, mas que to aí, vivendo e encarando a vida de frente. E não quero mais fugir.

Lili está mais alegre, mais carinhosa, falante, cada dia mais. Se sente amada, sabe que é. E acho que é isso o principal para uma criança: se sentir amada. E com seus próprios passos, irá traçar sua vida, sabendo que estaremos sempre ao seu lado. Eu, controlo até onde posso, mas sei que ela irá percorrer seu caminho por si só. Estarei observando e aprendendo com ela. Porque, de verdade, quem tem algo pra ensinar aqui, não sou eu.

Imagem: http://alegarattoni.com.br/wp-content/uploads/2014/02/mulher-maravilha-gravida.jpg

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