[Reblog] Cólica: a “dor de parto” do bebê

*Texto escrito pela minha querida amiga Michelle Prazeres, em 2011, ano em que nossos guris nasceram. Me ajudou demais a lidar com as cólicas da Elis.

Link original: http://neonatologiakk.blogspot.com.br/2011/07/colica-dor-de-parto-do-bebe.html?m=1&hc_location=ufi

Um relato sobre como lidamos com as cólicas do pequeno Miguel

Por Michelle Prazeres*

Miguel começou a ter cólicas com três semanas de vida. O comportamento era característico: pernas se mexendo freneticamente, choros sem fim, irritação, mamadas interrompidas, sono que não vinha nunca. Todos os dias, pontualmente às 18h, a crise começava. E pontualmente às 23h ela ia embora.

Durante as crises, eu e o papai Fernando fazíamos de tudo: mudávamos as posições, fazíamos bolsa de água quente, dávamos banho, tentávamos entreter o pequeno… nada funcionava. Só o relógio. Quando dava a hora de terminar, ela passava.

Passamos uma semana bem desesperada. E lembro que o desespero aumentou quando ouvi do Cacá: “Quem descobrir a causa e uma cura para a cólica do bebê, fica milionário”. O bebê passa por estas dores, porque seu organismo está se adaptando ao mundo humano. Neste sentido, seria como as dores do parto para as mães. Uma dor necessária, um rito de passagem. Segundo o próprio Cacá, quando sai da barriga, o bebê sai de um estado de divindade e precisa virar humano. Achei linda esta explicação. Mas na hora da dor de cabeça e do cansaço por conta das crises, a gente só queria que tivesse um remedinho…

Tentamos a funchicórea. Tomei regularmente, a cada quatro horas, diariamente, até as crises passarem. Mas sabia que toda tentativa de medicamento era mais no sentido de me tranqüilizar, por sentir que estava fazendo o que podia, do que efetivamente para fazer algum efeito no pequeno Miguel. Cheguei também a oferecer o dedo mindinho para sucção, que o acalmava. Por alguns segundos, até a crise voltar a falar mais alto…

Conexão: alimento, contato e comunicação

O que buscamos como solução tem a ver com o modo como pensamos a dor em nossa sociedade. Em geral, não buscamos o motivo da dor e a enxergamos como um sintoma que deve ser calado, curado. Mas a dor quer nos dizer algo. E a arte de lidar com as dores é justamente a de entender o que ela quer nos dizer. Lembro de ter lido no livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, uma psicóloga argentina fantástica, sobre as dores e seus motivos.

As dores de cólica não nos diziam, mas nos gritavam que precisávamos nos comunicar com nosso filho, estabelecer diálogo com ele, nos conectarmos. Buscamos então, uma conexão menos pragmática e mais emocional conosco mesmos e com nosso bebê.

Nos demos conta de que durante o primeiro mês de vida do Miguel, ficamos dando conta de demandas. Trocas, banhos, dormidas, mamadas: tudo era encarado como algo a ser resolvido. Nos demos conta de que estávamos vivendo uma experiência muito racional com a chegada do bebê, preocupados, claro e sempre, com o bem estar dele e com sua saúde. Eu e Fernando tivemos que fazer o exercício de nos vincularmos ao nosso bebê, nos conectando também com nosso lado mais “selvagem”, com nossa experiência emocional.

E para isso, precisávamos de tempo. Tempo sozinhos com nosso filho. E especialmente tempo JUNTO com o bebê.

Então, mudamos a sintonia. Começamos a encarar cada um destes momentos (que eram das “demandas”) como instantes de interação, vivência e conexão com nosso filho. E buscamos viver nossa vida com o menor grau de intervenções externas possível.

Optamos por um “pacote” que pensamos que ia nos ajudar neste sentido. Em lugar de deitar ele no berço, no carrinho ou no bebê conforto para dormir, mantivemos ele em nosso colo sempre que possível. À noite, estamos até hoje na cama compartilhada; passamos a usar os carregadores (slings) durante boa parte do dia, inclusive dentro de casa; aumentamos as vezes em que damos banhos de balde ou mesmo banhos de bacia, banheira e chuveiro, mas banhos com o intuito de relaxar o bebê e nos aproximar dele, não necessariamente banhos de higiene.

Além disso, fizemos um curso de shantala e começamos a fazer as massagens diariamente. Isso tudo sem contar, claro, a amamentação, estabelecida desde o começo por nós como um ritual de amor e de carinho da família. Na hora da troca, buscávamos contato com o corpo do bebê (no frio de São Paulo, isso demandou um investimento em um aquecedor…) e, sem pressa, interagíamos, brincávamos com as partes do corpo, pezinhos, mãozinhas, barriga… isso fez com que nossa experiência ficasse mais deliciosa. Passamos a curtir nosso filho e não mais a encará-lo como um serzinho que demandava de nós todo o tempo. Passamos a brincar com ele, a interagir, a nos conectarmos com ele e entre nós, na nossa família.

Hoje, fazemos a leitura de que nosso filho, com as crises de cólica, além de se adaptar ao mundo dos humanos, nos dava um recado. O de que precisávamos chegar mais perto. Ficar mais juntos. Sentir nosso calor. Um do outro. Ele o nosso e nós o dele também.

O Cacá nos advertiu também de que o comum, quando temos qualquer problema com o bebê, é nos afastarmos e procurarmos uma solução externa para o problema, seja ela uma mamadeira, uma chupeta ou um remédio, entre outras coisas.

Nós vimos que a solução está o mais dentro de nós possível: no peito, no colo, na voz, no cheiro, no calor. A nossa solução estava na nossa permissão para deixarmos de lado o controle, nos entregarmos à experiência da maternidade/paternidade e entrarmos em contato com nosso lado mais selvagem, mais puro, mais próximo do nosso filho. E de experimentarmos isso juntos.

Claro que não existe fórmula. E que outras crises de cólica virão. E eu não sou a pessoa que vai ficar milionária porque descobriu a solução e a causa das dores. Mas se posso deixar um recado a partir de nossa experiência eu diria para mamães e papais conversarem com seus filhos, buscarem entender o que as dores querem dizer. E buscarem estar a sós, a família, para encontrar, dentro de cada um e em contato com o outro, um estado de harmonia. Este estado deve fazer do bebê um ser humano mais feliz, mais tranqüilo e mais confortável para chegar a este mundão.

* Michelle e Fernando são pais de Miguel Prazeres Gameiro, que nasceu de parto normal humanizado em São Paulo, na maternidade São Luiz, no dia 28/04/2011, às 22h59, pesando 3kg735g e medindo 51cm, depois de 21 horas de Trabalho de Parto ativo. Era a 39ª semana de gestação pela ultrassonografia e a 40ª pela DUM.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s