Texto inspirador para educadores

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Koan
Rubem Alves
Do livro: A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir.
Os mestres Zen eram educadores estranhos. Não pretendiam
ensinar coisa alguma. O que desejavam era “desensinar”. Avaliações
de aprendizagem? Nem pensar. Mas estavam constantemente
avaliando a desaprendizagem dos seus discípulos. E quando perce-
biam que a desaprendizagem acontecera, eles riam de felicidade…
Loucos? Há uma razão na loucura. “Desensinavam” para que os
discípulos pudessem ver como nunca tinham visto. Nietzsche dizia
que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Ver é coisa com-
plicada, não é função natural. Precisa ser aprendida. Os olhos são ór-
gãos anatômicos que funcionam segundo as leis da física ótica. Mas a
visão não obedece às leis da física ótica. Bernardo Soares: “O que
vemos não é o que vemos, senão o que somos”. É preciso ser difer-
ente para ver diferente. Mas, e o “Ser”? Ele é feito de quê? “Os limites
da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”, dizia28/128
Wittgenstein. O “Ser” é feito de palavras. Prisioneiros da linguagem,
só vemos aquilo que a linguagem permite e ordena ver. A visão é um
processo pelo qual construímos nossas impressões óticas segundo o
modelo que a linguagem impõe.
Então, para se ver diferente, é inútil refinar a linguagem, refinar
as teorias. O refinamento das teorias só aumenta a clareza da me-
smice. A pedagogia dos mestres Zen tinha por objetivo desarticular a
linguagem, quebrar o seu “feitiço”. Com o que concordaria Wittgen-
stein, que definia a filosofia como uma luta com o feitiço da lin-
guagem. Quebrado o feitiço, os olhos são libertados dos “saberes” e
ganham a condição de olhos de criança: veem como nunca haviam
visto. Está lá em Alberto Caeiro, que fazia poesia para que os seus
leitores ganhassem olhos de criança…
O meu olhar é nítido como um girassol.
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do
Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)29/128
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
Para ver as árvores e as flores é preciso também não ter filosofia
nenhuma.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me
e ser eu…
O essencial é saber ver.
– Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender…
A psicanálise é uma versão moderna da pedagogia Zen. Freud
sugeriu que os neuróticos são pessoas “possuídas” pela memória,
memória que as obriga a viver vendo o mundo da forma como o
viram num dia passado. A memória nos torna prisioneiros do pas-
sado, não nos deixa perceber a “eterna novidade do Mundo”. Os
neuróticos são prisioneiros da sua mesmice. Por isso, são confiáveis:
serão hoje e amanhã o que foram ontem. A psicanálise é uma ped-
agogia de desaprendizagem. É preciso esquecer o que se sabe a fim
de ver o que não se via. Se a terapia for bem-sucedida, se o paciente30/128
conseguir desaprender suas memórias, então ele estará livre para ver
um mundo que nunca havia imaginado.
Roland Barthes teve uma iluminação Zen na sua velhice. Na sua
famosa “Aula”, ele diz, como “últimas palavras”:
“Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o
esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; vem,
em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se
chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiên-
cia, a de desaprender.”
E ele conclui: “Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e
fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria en-
cruzilhada de sua etimologia: Sapientia…”.
Os mestres Zen nada ensinavam. O seu objetivo era levar os
seus discípulos a “desaprender” o que sabiam, a ficar livres de
qualquer filosofia. Para isso eles se valiam de um artifício pedagógico
a que davam o nome de koan. Koans são “rasteiras” que os mestres
aplicam na linguagem dos discípulos: é preciso que eles caiam nas
rachaduras de seus próprios saberes.
A psicanálise repete a mesma coisa: a verdade aparece inespera-
damente quando acontece o lapsus, a queda, uma fratura no discurso
lógico. Aí, nesse momento, a iluminação acontece. Abre-se um ter-
ceiro olho que estava fechado. Acontece o satori: o discípulo fica
iluminado…
Isso que estou dizendo os poetas sempre souberam. Poemas são
koans, violências à lógica da linguagem para que o leitor veja um
mundo que nunca havia visto. É por isso que a experiência poética é
sempre um evento místico, de euforia. Não resisto à tentação de
transcrever um trecho do poema do Vinicius de Moraes, “O operário
em construção”. Tenho medo desse poema porque choro todas as
vezes que o leio. Ele começa descrevendo a mesmice do mundo que o
operário via no seu cotidiano, os pensamentos que ele pensava, as
palavras que ele falava. Mas, de repente…
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
Garrafa, prato, facão
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão,
Vidro, parede, janela,
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabiaExercer a profissão.32/128
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que nem sequer suspeitava.
E o operário emocionado
Olhou para sua própria mão
Sua rude mão de operário,
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Estou dizendo todas essas coisas para explicar o que aconteceu
comigo, quando visitei a Escola da Ponte. A Escola da Ponte foi um
koan, um lapsus, uma experiência de iluminação…
Minha grande paixão é a educação. Não posso me conformar
com os absurdos que perpassam nossas rotinas escolares: o sofri-
mento das crianças, a perda de tempo, os esforços desnecessários, os
esforços inúteis, os esforços absurdos – o maior exemplo de toda
essa irracionalidade sendo, para mim, os exames a que os jovens têm
de se submeter, no Brasil, para ingressar na universidade. Já sugeri
que um simples sorteio de vagas seria menos danoso à vida e à in-
teligência das crianças e dos jovens. E sobre isso escrevi muito…33/128
Faltava-me, entretanto, ver, na minha imaginação, utopica-
mente, uma escola que, de alguma forma, realizasse os meus sonhos.
Quando visitei a Escola da Ponte eu pude ver aquilo com que eu
sempre sonhara. O koan aconteceu a partir do espantoso momento
inicial. Eu, professor estrangeiro, visitante, vou visitar a escola, es-
perando que o seu diretor me desse as devidas explicações. Mas nada
disso aconteceu. Depois de trocar comigo aquelas palavras iniciais de
cordialidade, ele simplesmente chamou uma menina de uns nove
anos que estava passando e lhe disse, com total tranquilidade: “Tu
podes mostrar e explicar a nossa escola ao nosso visitante?”
Ditas es-
sas palavras, ele me abandonou sem pedir desculpas e a menininha
assumiu a tarefa com uma inteligência e um desembaraço que me
deixaram perplexo. Compreendi, então, que eu me encontrava diante
de uma escola que eu nunca imaginara.
Não sei se experiências podem ser repetidas. Não sei se a Escola
da Ponte pode ser reduplicada. Se conto essa experiência é na esper-
ança de que meus leitores tenham satori – que eles desaprendam as
montanhas de teorias que são constantemente despejadas sobre eles
(os burocratas da educação sempre imaginam que os professores ser-
ão “capacitados” se mais saberes lhes forem acrescentados. Jamais
lhes passa pela cabeça que a questão não é somar saberes, mas sub-
trair saberes…), para que possam ver coisas que nunca viram. E é
isso que importa. É assim que se inicia a sabedoria.
As crônicas que se seguem foram o relato, aos meus leitores no
Brasil, da experiência de satori que tive na Escola da Ponte. Por isso
sou grato. Fiquei iluminado…
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