Maternidade e feminismo

Antes de ser mãe, eu não tinha ideia da quantidade de despedidas que eu viveria dali em diante. Nunca imaginaria, que precisaria dar Adeus às férias tranquilas. Que precisaria pedir pelo amor de Deus para alguém ficar com a minha filha para eu dar uma volta por aí. Que dormir seria algo tão difícil, que sair pra beber com as amigas passaria a ser algo esporádico.

eliscorda

Nunca imaginaria que diversos relacionamentos se acabariam. Menos ainda, imaginaria que amizades fortes se transformariam em pó. Quem antes se dizia “irmã de alma”, hoje se transformou em alguém que não aguentou disputar sua atenção com sua filha, e se afastou. É claro que eu respeito. Mas que não é fácil, não é.

Fora o relacionamento com o companheiro. Foram 5 anos para as coisas se ajeitarem, desde a gravidez. Achávamos que nunca mais acharíamos o caminho de volta. Chegamos a nos separar, chegamos a ver que queríamos seguir sozinhos. Mas a vontade de fazer dar certo foi maior, para ambos, e cá estamos. Mas, fácil? fácil não é.

Ser mãe, e viver o ser mãe, é difícil demais. É um desconstruir-se, um desapegar-se. É ver que nada, nada mesmo, é fofo como você pensou. É, ao mesmo tempo, um trabalho de estar próximo ao seu filho, mas já sabendo que em breve ele estará em outra fase. E você também deverá estar. E se apegar. E desapegar. E ser, depois não ser mais.

As pessoas me perguntam se é difícil ter filhos. Ter filhos não é difícil, não. A Elis me ensina muito. E ela é muito tranquila, uma menina fácil de maternar. Eu só vou mediando o amadurecimento dela, porque ela tem bastante autonomia. O problema de ter filhos, ao meu ver, não é ter filhos em si. É toda a questão social que a maternidade te insere automaticamente.

Ser mãe é se enfiar, mesmo sem querer, no lugar que o patriarcado mais ama. O lugar “de mulher”: na cozinha, no quarto cuidando dos filhos, em casa, sem trabalhar. É exatamente o que querem de nós. E, acredite, ser uma mãe diferente disso é difícil. Mas não é impossível. A gente faz, mesmo com dificuldade.

Tem lado bom? tem. Sempre tem. Ainda bem.

carolelisartemis

Como tudo o que tem uma sombra muito grande, tem também uma luz na mesma proporção, com a maternidade eu também fui apresentada a coisas que me libertaram muito. A principal dela chama-se: feminismo. Eu não sabia o que era, nem pra que servia o feminismo. Mas ele automaticamente foi aparecendo para mim: ao ouvir os relatos de parto com violência obstétrica que minhas amigas sofreram, ao saber que tantas outras escolheram abortar mas não puderam porque é ilegal (outras sofreram aborto espontâneo e passaram por assédio moral no hospital), ao perceber o relacionamento abusivo pelo qual elas passavam com seus maridos e amigos (lembrando que relacionamento abusivo não acontece apenas entre homem e mulher, pode acontecer também entre mulheres), ao perceber como era difícil para mim, e para elas, conseguir um emprego com uma criança pequena. Como é difícil encontrar creche municipal que acolha a todas, como é dispendioso ter jornada tripla. Como é cansativo se separar – apesar de muito libertador – e ter que cuidar de um bebê, uma casa e um trabalho.

O feminismo me apresentou mulheres que me ajudaram em meu processo de libertação interno de tantas coisas que foram construídas ao longo da minha vida, sem eu me dar conta. Através dele entendi o que é um relacionamento abusivo, gaslighting, e comecei a dar nome para tantas atitudes que me aprisionavam. E fui me libertando, me soltando, me permitindo. E hoje não consigo mais me ver de outra forma. Hoje me ofereço para ajudar mulheres que sofrem no pós-parto, porque sofri com isso também. Quero pensar junto com elas sobre relacionamento abusivo, porque vivi também. Quero estar perto dessas mulheres que se fortalecem, porque me sinto fortalecida também.

elismarcha

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